CD Fases do Coração

Faixas

  • 1 - Entre girassóis (Edu Krieger e Moyseis Marques)
  • 2 - Panos e planos (Luiz Carlos Máximo e Moyseis Marques)
  • 3 - Oitava cor (Luiz Carlos da Vila, Sombra e Sombrinha)
  • 4 - Pretinha, joia rara (Moyseis Marques)
  • 5 - Fases do coração (Edu Krieger e Moyseis Marques)
  • 6 - Subúrbio (Chico Buarque)
  • 7 - Cartas de metrô (Moyseis Marques)
  • 8 - Mágoa (Roque Ferreira e Toninho Geraes)
  • 9 - Agradeça (Moyseis Marques)
  • 10 - Da maneira que ficou (Edu Krieger e Moyseis Marques)
  • 11 - Sonho e saudade (Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho)
  • 12 - Tem hora (Zé Paulo Becker e Moyseis Marques)
  • 13 - Lá se foi meu verão (Evandro Lima e Marquinho China)
Deck, 2009












Release

Moyseis Marques tem apenas trinta anos, mas sambistas como ele não devem ser medidos por suas idades cronológicas. Como continuadores de uma tradição, têm a idade dessa tradição. Parecem trazer dentro deles a herança, o eco, a lembrança de rodas de samba ancestrais, em remotas biroscas do Estácio ou da Cidade Nova, do tempo em que as coisas estavam realmente começando e seus praticantes se chamavam Newton, Ismael, Brancura, Bide ou Marçal. A filiação musical de Moyseis e sua identificação melódica e r'tmica com o Estácio parecem tão nítidas - mesmo que por (ilustre) via de Elton Medeiros, Chico Buarque ou Luiz Carlos da Vila - que, estivessem vivos hoje, Chico Alves e Mario Reis já o teriam gravado.
Ao mesmo tempo, numa época em que, em mãos alheias, a música parece encolher para dar lugar a línguas foragidas de Babel, como o funk, o rap e a eltro-pancadaria, Moyseis canta valores como cozinhas ladrilhadas, pinga para o santo e feijão para os amigos - como em "Panos e planos" (dele, em parceria com Luís Carlos Máximo). No plano do samba, o tempo não passa e certos valores são constantes. E quando alguns, de repente, dão as costas ao Rio pelos mercados de fora, Moyseis toma o metrô para Vicente de Carvalho e vê pela janela o desfile de ases e coringas do Carnaval: "Surgiram novos cantores/ Poetas, compositores/ Alunos, professores / De bar, de criação/ Que esplendor!" - como em "Cartas de metrô", sua réplica ao fabuloso "Subúrbio", de Chico Buarque, que ele também canta aqui e, no mano a mano, vê-se que a sua não fica a dever à viagem de trem do mestre. Não há bairro do Rio que não tenha suas próprias reservas de samba, e sábio será quem levar sua música para se abastecer delas.
DEsde seu primeiro CD, lançado há dois anos, também pela Deckdisc, Moyseis firmou seu lugar no território mais concorrido e disputado do panorama musical brasileiro: a noite da Lapa. Todas as quartas-feiras, ele está no Carioca da Gema - e quem passa pela rua, ouve o som que vaza pelas janelas e é informado de que não pode entrar porque lá dentro não cabe mais ninguém, sente-se roubado de alguma experiência vital. Ao mesmo tempo, a Lapa é ciumenta de seus expoentes e não gosta que eles se esbaldem fora de suas fronteiras. Foi assim com Teresa Cristina, que lutou para se ouvir no resto do mundo, e tem sido assim também com Moyseis. Mas isso pode mudar, agora que sua irresistível "Pretinha, joia rara" - "Pretinha, joia rara/ Treme as cordas vocais/ A paz estampa a cara/ Acalentando os casais/ E geme o peito aflito aflito/ Do perito rapaz/ Meu canto é mais um grito/ A preta tá com cartaz..."- caba de ser incluída na trilha sonora da novela "Caminho das Índias", cuja autora, Glória Perez. é dos que vão ouvi-lo com frequência na Lapa.
Das treza faixas de "Fases do coração", oito, entre as quais a faixa-título, têm o violão ou caneta de Moyseis, em parceria com craques como Edu Krieger, Zé Paulo Becker ou Luís Carlos Máximo, e todas parecem feitas para o seu estilo, jeito ou voz. Nesse sentido, é um disco mauis autoral que o de estreia, embora Moyseis não abra mão de cantar os sambas que admira e de autores com quem se identifica - como dona Ivone Lara e Delcio Carvalho, em "Sonho e saudade", Evandro Lima e Marquinho China, em "Lá se foi meu verão", e Toninho Geraes e Roque Enrico, em "Mágoa".
Mas nada supera seu amor por Luiz Carlos da Vila, cujo "Oitava cor" (com Sombra e Sombrinha) é uma das obras-primas da música dos últimos anos ("Pois é, assim é o nosso amor/ Do arco-íris a oitava cor") e talvez a faixa mais emocinante do disco. A morte de Luiz Carlos, em 2008, abalou todos que o conheceram, de show, de disco oude amizade, mas seu impacto sobre Moyseis foi enorme porque havia uma coisa ali de mestre e discípulo.
Há também algo de Luiz Carlos da Vila no som de Moyses e, se ninguém está a salvo de influências, que pelo menos sejam as mais nobres. Moyseis não podia ter escolhido melhor modelo.
A admiração por um artista pode ser medida também pela qualidade dos músicos que o acompanham - e a turma convocada para este disco pelos arranjadores Alessandro Cardozo, Henrique Band e Paulão Sete Cordas é um escrete que não se reúne para qualquer um.

RUY CASTRO é autor de Carmen - Uma biografia (a vida de Carmen Miranda), Chega de Saudade (sobre a Bossa Nova) e muitos livros, quase todos pela Companhia das Letras.